Disse o polaco Krysztof Warilowski escolhido para escrever a mensagem oficial sobre o Dia Mundial do Teatro em 2015:

« Os grandes mestres de teatro costumam encontrar-se longe dos cenários, e geralmente não mostram interesse pelo teatro enquanto máquina para reproduzir convenções, representações e clichês. Procuram as fontes da pulsão e as correntes vivas do teatro, evitando as salas de espectáculos e as multidões que preferem a cópia de um mundo ou de outro. Preferem criar mundos que incitem o debate com o público. Na realidade não há nada que possa revelar tantas paixões ocultas como o teatro.»

E é verdade.

Se queremos conhecer realmente uma pessoa o melhor que podemos fazer é dar-lhe a oportunidade de cobrir o seu rosto e o seu corpo com uma máscara, de modo que se sinta realmente anónimo, verdadeiramente a salvo de ser reconhecido e convidá-lo, como se fosse um jogo, a «fazer de conta que»; definitivamente, o teatro é um jogo cujas regras se baseiam na capacidade de aceitar convenções, de se exprimir em total liberdade.
Que tire tudo o que traz na alma, alegrias, frustrações, desejos, ódios, raivas, sonhos, fantasias… que solte todos os seus demónios e desejos e que liberte as suas pulsões.
E veremos como surgem teatralmente demónios e paixões, sexos diferentes dos oficialmente estabelecidos, figuras públicas consagradas como heroícas e poderosas assumindo-se como traidores, submissos e reconhecidos cobardes, traidores e tímidos, pessoas que fogem de todos os compromissos, empunhar as suas armas e, montados nos seus cavalinhos de pau, armarem-se em Descobridores, Conquistadores, heróis e patriotas, com as suas valentes espadas de madeira, filhos que odeiam os país e irmão, mulheres enamoradas por figuras públicas, maridos e honrados pais de família, geralmente divertidos, cujo único desejo é recolherem-se num convento e escutar o silêncio.
Nada melhor do que o teatro para conhecer o que vai na alma dos povos, nada melhor do que o verdadeiro teatro para avaliar como vai o mundo, para adivinhar o rumo que deve tomar para se assemelhar a um mundo humano.
Mas o teatro não está para dar respostas, não está para resolver problemas, a sua missão é expor e propor problemas. Problemas que a acção política do público deverá resolver à sua maneira na realidade do seu tempo.
E o teatro também não está para servir de propaganda eleitoral ou de consagração de sistemas, não está para vender eletrodomésticos, nem para adular os poderosos esperando um subsídio (que nunca chega), nem há bom teatro «a favor de…», o verdadeiro teatro está sempre contra, contra o mal feito, contra os pérfidos Tartufos e os velhos Harpagões.
E não deveria haver um dia mundial do teatro, como não deveria haver um dia da mulher, ou contra o racismo…. Num só dia não se pode lavar a consciência.
O REI VAI NÚ! Este grito é o teatro. Durante todo o ano.
Isto é o teatro. O grito de um inocente que diz o que vê, ainda que toda a máquina da propaganda industrial diga e afirme o contrário.
Logicamente aos que pensam que esta é a missão do teatro, os poderes oficiais não ajudam nem subsidiam, e quando podem expulsam-nos do país, proíbem-nos ou deixam-nos abandonados como curiosidade histórica.
Os verdadeiros criadores sobrevivem porque encontram sempre núcleos de iguais que amam a verdade e a beleza, sobrevivem porque não fazem parte do poder mas de aqueles a quem a roda esmaga, como dizia Tagore, sobrevivem porque fazem parte do povo e põem a sua imaginação no lugar onde os outros põem a alta tecnologia, dessa tecnologia que se compra nos mercados e que serve tanto para um “stand” que vende motos ou viagens turísticas, como para um espetáculo de rock ou de magia, com drones e automatismos industriais, ocupando o lugar de uma lágrima sincera, de um riso cristalino ou daquele grito de « Basta! » como o de Beluver.
Mundial. Um Dia Mundial. Um dia para o teatro num ano de mundialização, da globalização; dessa globalização que é a causa da deslocação das empresas e da criação de filiais e sedes nos países que permitem tributar menos.
A empresa que na Alemanha pagava 40% dos lucros instala-se no Luxemburgo e paga 12%. E estes são os pilares da sociedade!

O verdadeiro teatro denuncia essa globalização que ou uniformiza tudo e cria no Dubai uma réplica de «La Defense» e em Paris uma tenda berbere… que standariza o planeta consagrando um pensamento único e um gosto único por certas imagens e desenhos que substituem – ou pretendem substituir as verdadeiras obras de arte dos grandes artistas plásticos (também ostracizados ou condenados às elites).
Estamos intoxicados pelo engenho e pela engenhosidade dos engenheiros e curiosos que pretendem substituir os poetas e a ideia de que a arte é para todos, cria uma indústria cultural que produz grandes dividendos, a indústria do entretenimento, o mercado de estupefacientes, como dizia Brecht no Pequeno Organon
Critica a estratégia da ilusão, que cria a ideia de uma enorme democratização da cultura quando na realidade o que existe é uma indústria de entretenimento. E a verdadeira cultura continua a ser produzida nos pequenos grupos e elites, nessa imensa minoria como dizia Juan Ramon Jimenez.
O REI VAI NÚ! Este é o grito. Que seja o teatro o responsável por este grito e que as suas intuições indiquem o caminho do reencontro da humanidade consigo própria e com a sua verdadeira história.
Que Viva a Beleza! Que Viva a Paz! Viva a gente decente! Viva o Teatro!
Adolfo Gutkin